Ninjas de verdade
A arte marcial japonesa ninjutsu ensina técnicas de controle da
mente, ilusionismo e luta corporal. Os
treinos também ocorrem ao ar livre, para que alunos aprendam
estratégias de guerra sem confronto
Por Paola Lima / Equipe do Correio
Ninjas de cinema, lembra? Aqueles homens vestidos de preto da
cabeça aos pés,
com uma habilidade impressionante para atacar, invadir,
espionar. Lutadores com armas
típicas de filmes e revistas em quadrinhos: nunchakos, estrelas
envenenadas, adagas, facas,
bombinhas, bastões. E as cenas? Ninjas desaparecendo em uma
nuvem de fumaça,
escalando paredes ou se mantendo submersos por longos períodos
de tempo.
Engana-se quem pensa que todas essas imagens são apenas fruto
das
superproduções do cinema. Aqui mesmo, em Brasília, é possível
deparar-se com alguns
ninjas no meio da rua. Bom, não no meio da rua. Mas em
treinamentos no Parque da
Cidade, Água Mineral, Esplanada dos Ministérios.
São os praticantes do ninjutsu, arte marcial japonesa que aposta
nas táticas de
guerra e auto-controle, tanto quanto nas técnicas de luta
corporal. Umas das vertentes da
arte ensinada em Brasília é o tengu-dojo. Ao todo, são 120
aspirantes a ninja, com idades
entre 14 e 50 anos. Homens e mulheres, em diferentes graus de
iniciação, que praticam a
luta apenas pelo prazer de aprender uma arte marcial. Sim,
porque os ninjas não participam de competições e
quase nunca têm oportunidade de se exibir. Além disso, levam no
mínimo dez anos para chegar a mestre.
Todos, porém, são ninjas de verdade — ou vão ser, com o tempo —
ainda que não gostem da denominação
e da comparação com os ninjas do cinema. A caráter, eles se
vestem de preto, usam máscaras e sapatilhas (que
leva o nome de dikou tabi). Sabem manusear bastões, as shakens
(as estrelinhas de arremesso), espadas e o
nunchako (bastões unidos por correntes). Mas juram que o mais
importante é o crescimento pessoal proporcionado
pelo treinamento.
‘‘A grande temática do tengu-dojo é a auto-superação. É
descobrir e enfrentar seus limites físicos e
psicológicos’’, discursa o mestre Rogério Lima, 30 anos,
praticante de ninjutsu há 17. ‘‘Com o treinamento, buscamos
nosso aprimoramento físico. Melhoramos condicionamento,
flexibilidade, força, equilíbrio’’, explica.
Os praticantes do tengu-dojo mantêm-se ligados às tradições
milenares japonesas. As aulas na academia
acontecem envoltas em cheiro de incenso e ordens em japonês. Ao
canto do tatame, um altar reverencia os
mestres falecidos. Do outro lado, armas de treinamento (feitas
de madeira e borracha) substituem as letais armas
de verdade.
No caminho em busca do aperfeiçoamento físico e psicológico
estão técnicas de lutas, meditação, métodos
de concentração e manuseio de armas. Ao todo, são 18 artes
diferentes. Entre elas, as regras para caminhar
silenciosamente, hipnose e mentalização, arte dos disfarces e
exploração dos medos do adversário.
Para as mulheres, o treino pesado não é obstáculo. A estudante
de Artes Plásticas Cristina Alves, 19 anos,
quase desistiu da luta no primeiro dia. Hoje, dois meses depois,
acostumou com o ritmo puxado e adora. ‘‘Eu
achava que o treino era muito pesado e rígido. Já na segunda
aula vi que não era assim. Nós aprendemos toda uma
arte milenar e não só a técnica para lutar’’, explica.
Iniciante no tengu-dojo, Cristina começou interessada
principalmente em aprender uma forma de defesa
pessoal. Aprender a se defender, aliás, é uma das principais
lições do ninjutsu. Não que os praticantes andem
enfrentando bandidos por aí. Eles garantem que isso não acontece
‘‘O mestre nos aconselha a nunca reagir em
caso de assaltos ou coisas do tipo. Aprendemos a não colocar em
risco a nossa vida. Mas o tengu-dojo nos ensina
a evitar confusões. A ver um grupo suspeito e sair de perto, a
ficar mais atentos e saber se livrar das situações’’,
afirma Rodrigo Lima, 16 anos, faixa azul (a terceira da
hierarquia). O estudante começou cedo na luta. Por um
motivo simples, é irmão de Rogério e Rômulo, os mestres da arte
em Brasília.
Com tantas técnicas diferentes, não seria um treinamento no tatame,
dentro da academia, que empolgaria
os alunos. As aulas mais esperadas são ao ar livre. Seja no
Parque da Cidade, na Água Mineral ou na fazenda.
Nesses lugares, são praticadas as estratégias de guerra. Os
alunos são divididos em duas turmas, com missões
diferentes.
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