
A prova da pedra do inferno
No
Japão superindustrializado de nossos dias, subsistem fragmentos de um
mundo estranho e primitivo: o dos Yamabushi, ascetas que se entregam a
misteriosas práticas nos cumes quase inacessíveis de montanhas íngremes.
Até hoje, apenas três ocidentais participaram da iniciação dos
Yamabushi: Madame Blavatsky, um alemão e o professor paulista Ricardo
Mário Gonçalves, da Universidade de São Paulo. Aqui, Ricardo conta como é
esta cerimônia, uma das mais autênticas tradições iniciáticas que
chegaram até nossos dias.
Por
Ricardo Mário Gonçalves – Revista Planeta - Outubro - 1974 - Nº 26 (o
texto foi reformulado e acrescentado caracteres japoneses para maior
informação)
São
7 h da manhã de 13 de junho de 1973. Um ônibus deixa o pátio de um dos
templos de 京都 Kyoto, a antiga capital do Japão, conduzindo 40 homens
vestindo estranhas túnicas brancas e portando cajados, trompas de concha
e sinos. Entre eles, sou o único ocidental. Nosso destino é o monte 大峰
Ômine, próximo a 奈良 Nara. Nosso objetivo: uma iniciação esotérica no
Shugendô, uma das mais antigas e fascinantes tradições religiosas do
Japão. O 修験道 Shugendô é o produto da fusão dos primitivos cultos
nipônicos da natureza com o esoterismo budista trazido pelos
missionários da China e da Coréia. Sua base está na crença arcaica que
vê nas montanhas elevadas a morada dos deuses ou um ponto de comunicação
entre o universo sagrado e o profano, no qual os homens podem se
encontrar face a face com o divino. O monte Ômine, para o qual nos
dirigimos, é o mais antigo e tradicional centro iniciático da escola.
Consta que foi explorado por 役小角 En No Ozunu ou 役行者 En No Gyōja,
enigmático personagem do século VI de nossa era, considerado o primeiro
Yamabushi. Ainda hoje seu acesso é interdito às mulheres, pois só os
homens podem aspirar à iniciação. A iniciação dos Yamabushi chamado 灌頂
Kanjô (consagração) representa simbolicamente uma morte seguida de uma
ressurreição. A veste branca dos neófitos equivale à mortalha que
envolve os cadáveres. A montanha, com seus perigos e dificuldades, é uma
réplica das sombrias rotas do mundo dos mortos, plenas de ciladas e
provas iniciáticas. A caverna, na qual os neófitos penetram após as
penosas provas vividas na montanha, simboliza o útero materno, prelúdio
de um novo nascimento. O brado de triunfo que os neófitos emitem ao
deixar a caverna é o primeiro som emitido pelo "homem novo", pleno de
poderes e sabedoria, que nasceu com a iniciação.
A primeira purificação
O
ônibus se detém junto a um templo, já em plena zona montanhosa. Numa
grande sala é nos servido um almoço vegetariano. Depois, os 新客 Shinkyaku
(neófitos), apenas usando 廻し Mawashi, devem se banhar numa torrente
gelada que desce das alturas, sob o olhar severo e vigilante do 先達
Sendatsu (instrutor). É a primeira purificação. Ao sair dessa água
gelada que me faz doerem todos os ossos, não sou mais um homem comum,
sou um morto no umbral do além.
Começa
a longa escalada. Aos primeiros passos, deparamos com uma grande
tabuleta anunciando que a montanha é interdita às mulheres. Os
primeiros quilômetros de marcha são amenos, embora o terreno esteja um
pouco escorregadio por causa da leve chuvinha que cai. As trompas e
sinos soam alegremente, enquanto os Yamabushi repetem seu estribilho
cadenciado para regular a marcha: 六根清浄 Rokkon Shôjô (Purificação
dos seis sentidos de percepção; purificação da mente da pessoa e corpo
por emancipação de desejos todo mundanos e preocupações) 懺悔 Zange (Arrependimento
das culpas). A marcha se torna mais penosa. Um neófito estende a mão
para colher uma flor e o Sendatsu o adverte rispidamente de que toda
forma de vida encontrada na montanha é sagrada e intocável. Um rapaz se
inclina sobre um precipício para contemplar uma paisagem e um velho o
detém, dizendo-lhe que trate de respeitar a montanha ou ela poderá lhe
arrebatar a vida. Sente-se nesses homens um profundo respeito pela
natureza e talvez esteja aí à explicação do profundo fascínio que as
práticas dos 山伏 Yamabushi exercem num Japão superpoluído onde a
industrialização desenfreada está arrasando rapidamente com o meio
ambiente. Nos rostos dos jovens que buscam a iniciação posso ler um mudo
protesto contra a desenfreada destruição da natureza. Às vezes nos
detemos diante de toscas imagens de pedra ou metal representando En No
Gyôja ou divindades budistas, ante as quais, sob a liderança do
Sendatsu, recitamos mantras e invocações budistas. Isso porque o budismo
marcou profundamente o Shugendô, dando um novo conteúdo e uma profunda
dimensão filosófica ao que anteriormente não passava de um conjunto de
ritos primitivos para obter poderes sobrenaturais. A ladeira é cada vez
mais íngreme, meus pés estão doloridos e cansados, meu corpo está
gelado e encharcado de chuva. Já estamos caminhando há mais de três
horas, mas as provas mais duras ainda não começaram.
Os horrores da Pedra do Inferno
Chegamos
por fim juntos a uma pedra, que, semelhante a um terraço, se projeta
sobre um abismo de várias centenas de metros de profundidade. O Sendatsu
anuncia que é chegada a hora do 西の覗き Nishi No Nozoki (contemplação do
oeste), também conhecido como 地獄覗き Jigoku Nozoki (contemplação
do inferno), a primeira grande prova para os neófitos. Um a um, os
neófitos vão sendo conduzidos para a beira do abismo. Um instrutor
amarra uma corda aos ombros do neófito e segura-a como uma rédea, ao
passo que dois outros lhe seguram os pés. O neófito é então mantido de
cabeça para baixo por sobre o abismo, com as mãos soltas no ar. O
Sendatsu grita-lhe que deve conservar os olhos bem abertos, para
enxergar bem todos os horrores do inferno, lá embaixo. Pergunta-lhe
depois se ele jura ter daí por diante boa conduta moral, devoção às
divindades etc. O neófito responde afirmativamente com voz tremula,
ansioso por se ver logo livre daquele horror. Os instrutores ameaçam
lançar o neófito no abismo e içam-no rapidamente. Essa foi realmente a
mais terrível experiência que vivi entre os Yamabushi. A escalada tem
seus perigos e dificuldades, mas enfim é sempre o próprio praticante que
supera as dificuldades, com seus próprios meios, sem recorrer ao apoio
de ninguém. Entretanto, na prova da Pedra do Inferno, o neófito é
obrigado a confiar inteiramente na força e na perícia dos desconhecidos
que o mantêm dependurado sobre o abismo, com a vida por um fio. Mesmo
aqueles mais dotados de desprendimento e coragem sentem o sangue gelar
de pavor nesses momentos terríveis.
Cheio
de terror, mal consegui vislumbrar uma névoa branca que pairava sobre o
fundo do abismo. Surpreendi-me ouvindo mais tarde o relato de um
neófito de meia-idade:
“Dominando
o terror e encarando fixamente o fundo do abismo, notei que ali
cresciam flores. Meu coração ficou extasiado com sua beleza, nunca vi
flores tão maravilhosas como essas!”.
Plena atenção ou morte
Minutos
depois, reiniciamos a marcha e chegamos diante de um paredão de mais ou
menos 50 m de altura. Podíamos ver no alto do mesmo inúmeras rochas de
contornos irregulares. A caravana se deteve, e nós, neófitos,
recebemos ordem de reunir toda a nossa bagagem num canto. Alguém a
levaria para o alojamento dessa noite, enquanto enfrentaríamos outra
prova: a escalada dos 行場 Gyôbas (pontos de treinamento). Um
calafrio percorreu todo o meu corpo ao ver o paredão à minha frente.
Como seria possível escalar aquilo, se eu nunca pratiquei alpinismo na
vida e sempre tive medo das alturas? Mas era impossível recuar.
Um dos instrutores adiantou-se e foi escalando o paredão, ágil como um
macaco. Em poucos instantes estava lá em cima, e dali começou a orientar
a escalada dos neófitos. Devíamos subir um a um, ouvindo atentamente
as instruções que ele gritava lá de cima, orientando-nos sobre onde
colocar cada mão e cada pé. Prestei a máxima atenção a cada palavra e a
cada movimento, e dali a pouco estava lá em cima, diante de uma imagem
de pedra, chorando de gratidão por ainda estar vivo. A mesma coisa se
repetiu em mais dois ou três pontos diferentes. O maior perigo ocorreu
no último Gyôba, chamado Byôdôishi (a Pedra da Igualdade), pois
todos se sentem iguais perante a morte iminente, quando é necessário
dar um salto bastante arriscado para agarrar a pedra, com um abismo de
centenas de metros lá embaixo.
O
budismo ensina que a plena atenção aplicada àquilo que se faz em cada
instante é o principal ponto a ser cultivado na meditação budista. As
diversas escolas budistas proporcionam vários métodos para a prática da
plena atenção, mas para mim o mais eficiente é o dos Yamabushi, pois no Gyôba, deixar de ter plena atenção por um instante significa morte certa.
Após a escalada dos Gyôbas, fomos
conduzidos a um tosco alojamento de madeira, onde pernoitamos. Na manhã
seguinte, após alguns rituais em santuários instalados no alto da
montanha, iniciamos a descida, que tomou umas cinco horas de marcha. No
sopé da montanha, fomos conduzidos a uma caverna onde nos mostraram
inúmeros símbolos relacionados com En No Gyôja e onde renascemos para a
vida profana.
Outros centros iniciáticos
Ômine
não é o único centro de Yamabushi do Japão. Praticamente todas as
montanhas do Japão são sagradas, mas hoje em dia muitas delas foram
invadidas por turistas e deixaram de ser centros iniciáticos. É por
exemplo o caso do monte Fuji, a mais alta montanha do país, verdadeiro
símbolo nacional. Turistas japoneses e estrangeiros escalam-no em
multidões, poluindo-o com enormes montões de lixo. Os Yamabushi já não
mais procuram a montanha sagrada que já deixou de ser o símbolo da
pureza, conspurcado pelos detritos da civilização de consumo.
Um
centro iniciático que conserva seu prestígio é o monte 御嶽 Ontake, na
região de 木曽 Kiso, na prefeitura de 長野 Nagano, Japão Central. Estive
ali durante três dias, no mês de agosto. Não há Gyôbas íngremes
como no monte Ômine, mas a área a ser escalada é muito maior e a
descida também é muito estafante. As mulheres têm permissão para se
iniciarem no monte Ontake e muitas delas se tornam líderes de irmandades
de Yamabushi. Ao contrário do monte Ômine, onde predominam influências
budistas, os adeptos do monte Ontake se mantêm fiéis aos cultos
nacionais da natureza (神道 Shintô).
Palavras mágicas
Fui
levado ao monte Ontake por um estranho personagem de nome Sussumu Suda.
É um jovem de uns 35 anos, funcionário da Companhia Telefônica de 横浜
Yokohama. Foi iniciado nas práticas dos Yamabushi por sua mãe e gasta
todos os seus dias de folga percorrendo de bicicleta os principais
santuários budistas do país. Possui uma aguda intuição e, em nosso
primeiro encontro, disse-me coisas muito importantes e profundas sobre
minha vida particular, sem que eu lhe tivesse dito nada a meu respeito.
Quando escalamos o monte Ontake, vi-o reanimar com gestos e palavras
mágicas algumas pessoas idosas que se sentiram mal no meio do percurso e
que, depois do tratamento, chegaram sem a menor dificuldade até o fim
do mesmo. Um dos momentos altos de minhas experiências com os Yamabushi
foi ver Sussumu Suda meditando imóvel debaixo do impacto de uma queda
d'água, numa noite de chuva. Em volta de nós, trovões e relâmpagos
rivalizavam com o estrondo da cachoeira. Um dos Yamabushi, com uma
lanterna elétrica iluminava Suda que, vestido com uma túnica branca,
manteve-se absolutamente imóvel debaixo d'água durante meia hora,
enquanto nós todos entoávamos Sutras e Mantras. Tive também um estágio
no monte 冠ヶ岳 Kanmurigatake, no sul da ilha de 九州 Kyûshû, próximo à
cidade de 鹿児島 Kagoshima. Ali, sob a direção do mestre Eikan Ikeguchi,
instrutor de budismo esotérico, que já visitou o Brasil por duas vezes,
pratiquei o 降魔 Goma (ritual védico do fogo, derrotar os
demônios e conquistar o mau) no alto de um rochedo, após um trabalho de
purificação numa torrente gelada e da perigosa escalada de um Gyôba. Depois, pratiquei 坐禅 Zazen (meditação
Zen) sentado de costas para o abismo, sobre uma precária ponte de
pedras, com os olhos fixos na lâmina afiada de uma espada mantida de pé a
poucos centímetros de meu rosto, graças a um precário arranjo de
pedras. Não consegui visitar os montes 出羽三山 Dewa Sanzan, principal
centro iniciático do Japão Setentrional, que dizem ser mais íngreme e
perigoso que o monte Ômine. Também não consegui visitar 恐山 Osorezan (a
Montanha do Terror), no Nordeste do Japão, onde o povo procura velhas
ascetas cegas, denominadas Itako (mulheres Xamãs com mediunidade), para
ouvir de seus lábios a voz de seus entes queridos falecidos, que essas
mulheres proclamam poder invocar e incorporar mediunicamente.
Entrevistando um especialista
Consegui
entrevistar em Kyôto o professor Shigeru Gorai, da Universidade de
Otani, que há muitos anos vem se dedicando a pesquisas referentes ao
Shugendô e sua importância dentro da história cultural do Japão.
— Teve o Shugendô uma importância similar à do Zen na formação da cultura japonesa?
—
O ocidental, que de cultura japonesa mal conhece alguns rudimentos de
Zen vulgarizados em inglês, mal pode imaginar a extrema importância da
religião dos Yamabushi para a formação da mentalidade e da cultura
japonesa. O Zen é um movimento intelectualizante que mal tocou alguns
setores das classes dominantes japonesas, ao passo que o Shugendô deixou
profundas marcas em toda a cultura popular. Os Yamabushi se originaram
das classes populares e sempre atuaram no seio do povo humilde, não só
como organizadores de irmandades religiosas e como xamãs-feiticeiros
dotados de poderes de premonição e curas, mas também como líderes
culturais, difusores de técnicas da medicina oriental, criadores de
festivais artísticos com música, dança, teatro etc. Viajaram
constantemente por todo o Japão, levando às aldeias isoladas informações
sobre o que ocorria em regiões distantes. Muitas vezes trabalharam como
espiões a serviço dos barões feudais. Muitos também divulgaram e
aperfeiçoaram as artes marciais.
— Qual a situação do Shugendô no Japão de hoje?
—
O Shugendô, como sincretismo entre o esoterismo budista e a primitiva
religião japonesa, sofreu uma séria repressão por parte das autoridades a
partir de 1868, quando a meta do Governo nipônico foi estabelecer uma
religião nacional (xintoísmo) purgada de elementos estrangeiros e
centralizada na adoração do imperador divino. Muitos santuários foram
destruídos e muitas comunidades foram dispersas. Atualmente, com a
volta das liberdades democráticas após 1945, o Shugendô está em vias de
reorganização, mas não conseguiu ainda se recuperar da terrível
repressão sofrida. Em todo o caso, o vazio espiritual em que o Japão
caiu ultimamente tem levado certos elementos, inclusive muitos jovens, a
procurarem no Shugendô uma vida mais pura, em comunhão íntima com a
natureza. Até mesmo muitos monges budistas estão se fazendo iniciar no
Shugendô, procurando reavivar a chama da autêntica vivência religiosa,
há muito adormecida sob as cinzas do ritualismo mecânico e do
intelectualismo estéril.
— O Shugendô possui alguma igreja organizada ou hierarquia sacerdotal?
— Nada disso. O Shugendô é formado por um número incontável de pequenas
irmandades que se organizam espontaneamente em torno de certos
indivíduos que o consenso popular reconhece como líderes. São geralmente
pequenos comerciantes, artesãos ou pequenos funcionários públicos ou de
firmas particulares. Uma ou duas vezes por ano, aproveitando alguma
folga, a irmandade aluga um ônibus e vão todos para as montanhas, sob a
direção do líder. Em alguns casos, as irmandades podem estar filiadas a
algum templo do budismo esotérico, que organiza cursos e seminários para
o treinamento de líderes ou de simples fiéis. Um dos templos que mais
atuam no campo do Shugendô é o 醍醐寺 Daigoji de Kyoto, pertencente à
Escola 真言 Shingon de Budismo Esotérico.
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